Será que os praticantes de mindfulness lidam de forma diferente com as distrações mentais?
Investigação sugere que a prática de mindfulness pode contribuir para uma relação mais flexível com os pensamentos espontâneos, um aspeto relevante para compreender padrões mentais persistentes associados à ansiedade, preocupação excessiva ou ruminação.
Publicado a Oct 6, 2026
É uma experiência comum: estamos concentrados numa tarefa e, de repente, percebemos que a mente já está noutro lugar, a revisitar memórias, a planear o futuro ou simplesmente a divagar. Esta tendência natural, conhecida como mind-wandering, ocupa grande parte do nosso tempo. Mas será que a prática de mindfulness altera a forma como reconhecemos essas distrações e regressamos ao momento presente?
Para responder a esta questão, investigadores da Universidade de Udine, em Itália, estudaram 56 adultos, metade deles praticantes experientes de meditação mindfulness e metade sem experiência regular de meditação. Durante sessões de meditação focada na respiração, os participantes mantinham a atenção na respiração com os olhos fechados. Numa das tarefas, tinham de carregar num botão sempre que se apercebiam de que a mente se tinha distraído com pensamentos, memórias ou imagens mentais. Noutra tarefa, eram interrompidos oito vezes por um sinal sonoro aleatório e tinham de indicar se, naquele exato momento, estavam concentrados na respiração ou se a mente tinha divagado. Ao longo de ambas as tarefas, os investigadores registaram continuamente a frequência cardíaca e os movimentos oculares.
Os resultados mostraram diferenças claras entre os dois grupos. Nos participantes sem experiência de meditação, a frequência cardíaca aumentava quando a atenção já se encontrava novamente centrada na respiração após um episódio de distração. Já nos meditadores experientes, a frequência cardíaca mantinha-se estável ao longo de todo o processo, sugerindo uma transição mais fluida e menos exigente entre distração e concentração.
Os movimentos oculares revelaram igualmente padrões interessantes. Em ambos os grupos, aumentavam sobretudo quando os participantes tomavam consciência da distração e redirecionavam a atenção para a respiração. No entanto, os meditadores apresentavam sistematicamente menos movimentos oculares do que os controlos. Além disso, relataram menos episódios de distração detetados espontaneamente, através deste método de autorrelato, e menor esforço para se manterem focados. Os investigadores observaram ainda que existia uma forte correspondência entre o número de episódios distração mental identificados pelos dois métodos utilizados nos participantes com experiência de meditação. Esse padrão não foi encontrado nos participantes sem experiência de meditação.
Os autores concluem que a experiência em mindfulness parece estar associada a uma resposta fisiológica mais estável quando a mente se afasta do foco e regressa à tarefa. Em vez de reagirem de forma mais intensa ao momento em que percebem a distração, os meditadores parecem lidar com esse processo de forma mais regulada e menos reativa. Estes resultados apoiam a ideia de que a prática de mindfulness pode contribuir para uma relação mais flexível com os pensamentos espontâneos, um aspeto potencialmente relevante para compreender padrões mentais persistentes associados à ansiedade, preocupação excessiva ou ruminação.
O estudo Heart and ocular correlates of self-caught and probe-caught mind wandering during focused mindfulness meditation in meditators and controls, publicado na revista científica Scientific Reports, resulta do projeto 244/22 - Autonomic signatures of mind wandering and its consequences on attention and positive emotions in individuals with different levels of expertise in mindfulness meditation, apoiado pela Fundação Bial e liderado por Cristiano Crescentini.
ABSTRACT
Focused meditation involves a dynamic cycle of four mental states: mind-wandering (MW), awareness of distraction (AWARE), shifting attention back (SHIFT), and sustained attentional focus (FOCUS). Meta-awareness of these processes is trained during mindfulness meditation, possibly improving mental health. This study investigated heart rate (HR) and ocular movements during breath-focused meditation in 28 experienced meditators and 28 non-meditating controls. The design integrated two complementary approaches: self-caught (i.e., spontaneously noticing when attention drifts away from the breath) and probe-caught (i.e., interrupting participants to report their attentional state) sampling methods for mind-wandering, alongside mindfulness questionnaires. In the self-caught paradigm, the Group × Phase interaction (p = .017) showed HR increase during FOCUS only in controls. In contrast, meditators’ HR remained stable and showed a negative association with non-judging during AWARE (BF10 = 12.91). Eye movements increased particularly during SHIFT in both groups (p < .001). However, meditators showed lower eye movements in both paradigms (ps ≤ .002). Finally, only meditators showed a significant positive correlation between self-caught and probe-caught episode counts (BF10 = 860.42). These results suggest that mindfulness meditation expertise may be associated with more regulated and less reactive meta-awareness of distraction, with potential implications for maladaptive thought patterns and mental health.