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O que sonhamos reflete quem somos e o que vivemos?

Investigadores estudam os mecanismos que ligam o conteúdo dos sonhos à consolidação da memória, à regulação emocional e à consciência durante o sono.

Data: May 14, 2026

Estudo analisou, ao longo de quatro anos, milhares de relatos de sonhos e de experiências em vigília e indica que o que sonhamos é moldado por traços individuais estáveis, como a atitude face ao ato de sonhar, a propensão para o devaneio mental e a qualidade subjetiva do sono.

Os sonhos são experiências simultaneamente universais e pessoais, intimamente ligadas à vida em vigília, ainda que muitas vezes distintas dela. Durante o sono, o cérebro gera narrativas dinâmicas moldadas por experiências prévias, crenças, expectativas e mecanismos neuronais que ainda não são plenamente compreendidos. Os sonhos têm sido objeto de estudo das neurociências, sendo encarados tanto como um modelo privilegiado para investigar a emergência da consciência como uma possível via para compreender as funções do próprio sono.

Diversos estudos sugerem que o conteúdo dos sonhos reflete memórias, preocupações e emoções da vida de cada indivíduo e tem sido associado a processos de aprendizagem, consolidação da memória e regulação emocional.

O que ainda permanece pouco claro é até que ponto os traços individuais estáveis e as experiências partilhadas ao longo do tempo moldam o conteúdo dos sonhos. Para esclarecer esta questão, uma equipa de investigadores, coordenada por Giulio Bernardi (IMT School for Advanced Studies Lucca, Itália) e com o apoio da Fundação Bial, recolheu um conjunto de dados prospetivos com relatos de sonhos e de experiências em vigília, para analisar quantitativa e detalhadamente as características semânticas dos sonhos.

No artigo “Individual traits and experiences predict the content of dreams”, publicado na revista Communications Psychology, os investigadores explicam que quantificaram de forma sistemática a estrutura semântica dos sonhos recorrendo a 3366 relatos de sonhos e de experiências em vigília, recolhidos entre 2020 e 2024 junto de 207 adultos, juntamente com medidas demográficas, cognitivas, psicométricas e de sono. Para tal, combinaram uma avaliação de dimensões semânticas orientadas por hipóteses, apoiada por modelos de linguagem de grande escala, com uma abordagem baseada em domínios lexicais orientada pelos dados.

Os resultados obtidos indicam que o conteúdo dos sonhos resulta da interação entre quem somos, os nossos traços e características individuais relativamente estáveis (tais como, atitude face ao sonhar, a propensão para o devaneio mental e a qualidade subjetiva do sono) e aquilo que vivemos no dia a dia. Os dados mostram que elementos da vida em vigília podem ser transformados durante o sono, com fragmentos da realidade remodelados e reorganizados em novas narrativas oníricas. Em vez de constituírem uma reprodução direta das experiências diárias, os sonhos podem oferecer uma reinterpretação hiperassociativa de eventos passados e expectativas futuras, entrelaçando elementos aparentemente distantes em cenários coerentes, embora frequentemente bizarros.

Um segundo conjunto de dados independente, recolhido durante o primeiro confinamento associado à COVID-19 em 2020 (80 participantes), permitiu examinar o impacto de um grande fator de stress externo na semântica dos sonhos. Durante o confinamento, os sonhos apresentaram um aumento de referências a limitações e uma maior intensidade emocional, efeitos que se normalizaram gradualmente ao longo dos anos seguintes.

“Este estudo mostra que traços individuais estáveis e experiências circunstanciais moldam conjuntamente o conteúdo e a fenomenologia das experiências oníricas. Os resultados contribuem para reduzir lacunas históricas entre a investigação dos sonhos e a neurociência cognitiva, oferecendo novos conhecimentos e ferramentas que permitirão formular hipóteses testáveis sobre os mecanismos que ligam o conteúdo dos sonhos à consolidação da memória, à regulação emocional e à consciência durante o sono”, afirma Giulio Bernardi.

Saiba mais sobre o projeto “91/20 - Mentation report analysis across distinct states of consciousness: A linguistic approach” aqui.

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