O vínculo mãe-bebé começa antes do nascimento?
Estudo revela que as grávidas que imaginam mais frequentemente o bebé, antecipam a vida com ele e interagem mais com o feto apresentam também maior coordenação da atividade entre determinadas regiões cerebrais.
Data: Nov 4, 2026
A gravidez representa um período de mudança e adaptação, marcado por alterações psicológicas e neurobiológicas associadas à preparação para a maternidade e aos cuidados maternos. Um dos aspetos centrais deste processo é o vínculo materno-fetal (VMF), a ligação emocional entre a grávida e o bebé ainda por nascer, que se manifesta nos pensamentos, sentimentos e comportamentos da mãe em relação ao feto.
O VMF é um fenómeno com várias dimensões, desde a atenção da grávida às mudanças no seu corpo e aos movimentos do feto, passando pelas interações com o feto e pela capacidade de imaginar o bebé e antecipar a vida em conjunto, até à motivação para adotar comportamentos que promovam a sua saúde e bem-estar.
Estudos anteriores sugerem que níveis mais elevados desta ligação emocional durante a gravidez têm sido associados a uma vinculação pós-natal mais forte, a comportamentos maternos mais sensíveis e a interações mais responsivas após o nascimento. No entanto, apesar de décadas de investigação sobre o VMF, as suas bases neurobiológicas continuam a ser pouco conhecidas.
Neste contexto, Kathy Ayala e Helena Rutherford da Universidade de Yale, EUA, com a sua equipa, realizaram um estudo, apoiado pela Fundação Bial, que envolveu 35 mulheres grávidas no terceiro trimestre de gestação, com uma média de 36,8 semanas. As participantes realizaram um eletroencefalograma (EEG) em estado de repouso. A partir deste registo, os investigadores analisaram a coerência do sinal cerebral, uma medida bem estabelecida da conectividade entre regiões do córtex e que tem sido associada a processos cognitivos, atencionais e emocionais relevantes para a parentalidade.
A partir dos dados do EEG, foi calculada a coerência da atividade cerebral na banda alfa entre regiões frontais, parietais e frontoparietais. Esta medida permite estimar até que ponto a atividade de diferentes regiões cerebrais ocorre de forma coordenada. O VMF foi avaliado através do Inventário de Vínculo Pré-Natal Revisto (PAI-R), composto por três dimensões: antecipação, interação e diferenciação.
Os resultados, publicados no artigo Bonding before birth: Maternal–fetal attachment and maternal cortical connectivity in late pregnancy no Journal of Neuroendocrinology, mostraram que uma maior coerência alfa nas regiões intrafrontais e frontoparietais do hemisfério esquerdo estava associada a pontuações mais elevadas nas dimensões de antecipação e interação do PAI-R. Ou seja, as grávidas que imaginavam mais frequentemente o bebé, antecipavam a vida com ele e interagiam mais com o feto apresentavam também maior coordenação da atividade entre determinadas regiões cerebrais. Estas associações mantiveram-se mesmo depois de se ter em conta a idade gestacional e a paridade, ou seja, o facto de a mulher já ter ou não tido filhos anteriormente.
Estas conclusões sugerem que as diferenças individuais na conectividade cortical estão associadas ao VMF, sobretudo aos aspetos de antecipação e interação que integram o envolvimento psicológico da grávida com o feto. A identificação destas associações cerebrais sugere que alguns processos relacionados com o vínculo materno-fetal poderão refletir-se na conectividade cerebral durante a gravidez, contribuindo para uma melhor compreensão das bases neurobiológicas desta ligação precoce.
“O nosso estudo sugere que as diferenças individuais na conectividade cerebral materna estão associadas a determinados aspetos do vínculo emocional com o feto, oferecendo novas pistas sobre as bases neurobiológicas desta relação precoce entre mãe e filho”, afirma Helena Rutherford.
Saiba mais sobre o projeto “111/16 - A psychophysiological perspective of the transformative experience of pregnancy” aqui.