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Será que o cérebro em repouso revela quem tem mais propensão para alucinações?

Investigação revela que quanto maior é a propensão para experiências alucinatórias, mais frequentemente o cérebro muda de estado, sugerindo uma mente mais volátil, caracterizada por mudanças rápidas entre momentos de foco interno e externo.

Publicado a Apr 20, 2026

Por vezes, o nosso cérebro parece estar em modo piloto‑automático, especialmente quando estamos em repouso, de olhos fechados, aparentemente a “não fazer nada”. Mas, na verdade, mesmo nessa aparente calma, o cérebro passa por uma dança contínua de estados elétricos rápidos e instáveis. E essa dinâmica subtil pode revelar muito sobre uma característica presente em toda a população: a propensão para experiências semelhantes a alucinações, que varia de pessoa para pessoa.

Um novo estudo liderado por Sonja Kotz e colaboradores investigou como quatro dimensões distintas dessa propensão - experiências multissensoriais, devaneio auditivo, pensamentos vívidos e fala interior, e experiências personificadas (sensação de que um conteúdo mental provém de “alguém”) - se expressam nos ritmos alfa do cérebro em repouso, registados por EEG. Em vez de analisar apenas a amplitude das ondas cerebrais, a equipa utilizou um modelo computacional avançado (Hidden semi‑Markov Model) que permite identificar padrões transitórios e recorrentes de atividade, bem como a forma como o cérebro transita entre estes estados longo de apenas três minutos de repouso.

Os resultados mostram uma associação clara: quanto maior a propensão para experiências alucinatórias (em qualquer das dimensões), mais frequentemente o cérebro muda de estado, sugerindo uma mente mais volátil, caracterizada por mudanças rápidas entre momentos de foco interno e externo.

Contudo, para alguns participantes, essas alterações não eram apenas mais frequentes: apresentavam padrões temporais específicos. Em particular, participantes com pontuações mais elevadas na dimensão “experiências personificadas” mostraram diferenças sistemáticas ao longo do tempo na forma como visitavam dois estados cerebrais com topografias quase opostas. Um deles, marcado por atividade mais forte em regiões parietais e frontais, parece refletir maior foco na experiência interna; o outro, com distribuição temporal distinta, pode corresponder a mecanismos de controlo que ajudam a distinguir entre o que vem de dentro e o que vem de fora. Quando estes estados mostram padrões temporais divergentes, tal pode refletir instabilidade em processos de monitorização da origem dos conteúdos mentais. Este tipo de instabilidade tem sido associado, noutros estudos, ao viés de externalização (a tendência para atribuir pensamentos, sensações ou imagens internas a uma fonte externa). Este viés está bem documentado tanto em populações clínicas como não clínicas e pode ajudar a explicar por que motivo algumas pessoas tendem a ter experiências mais vívidas ou intrusivas, sem que isso corresponda a doença.

No conjunto, o estudo mostra que não existe um único “tipo” de propensão para alucinações. Em vez disso, cada dimensão apresenta padrões próprios na dinâmica dos estados cerebrais em repouso, sugerindo que diferentes perfis de vulnerabilidade têm assinaturas neurais distintas. Ao revelar estes padrões, a investigação ajuda a compreender como o cérebro gere, ou por vezes falha em gerir, a fronteira entre o interno e o externo. E sugere que, mesmo em cérebros saudáveis, essa fronteira é mais dinâmica, frágil e fascinante do que geralmente imaginamos. Este estudo foi publicado na revista científica Behavioural Brain Research, no artigo Differentiating hallucination proneness dimensions through alpha resting state dynamics, no âmbito do projeto de investigação 102/22 - Identifying altered resting state connectivity dynamics as predictors of auditory verbal hallucinations (AVH), apoiado pela Fundação Bial.

ABSTRACT

Hallucination-like experiences (HLEs) are untriggered sensory perceptions linked to externalizing bias - the misattribution of self-generated sensory experiences to an external source. The vulnerability to HLEs, i.e., hallucination proneness (HP), is typically assessed by the Launay-Slade Hallucination Scale (LSHS). A newly proposed LSHS factor analysis revealed four distinct HP dimensions: Multisensory HLEs, Auditory daydreaming, Vivid thoughts and inner speech, and Personified HLEs. The current study assesses whether these HP dimensions map onto distinct patterns of resting state brain dynamics in the alpha frequency band due to its modulatory role in attention and perception. We used a Hidden semi-Markov Model to segment continuous RS alpha activity into nine recurrent brain states and extracted the total number of transitions (TT) and the number of visits per state (SV). We assessed how the HP dimensions relate to these metrics, calculated across the entire 3-minute recording and within shorter sliding windows to capture finer temporal changes. All HP dimensions and increased RS time correlated with increased TT. Increased Personified HLEs scores linked to different time-dependent changes of SV in two states (SV to state 5 decreased over time, while visits to state 9 increased), highlighting distinct alpha dynamics in high- and low-hallucination prone individuals. Increased TT could indicate frequent attentional switches between internal and external states. Different SV patterns related to higher Personified HLEs scores suggest unstable source monitoring, potentially inducing an externalizing bias. These findings provide novel predictors of HP dimensions, revealing distinct neural profiles associated with different vulnerability profiles.


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