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Será possível identificar sinais precoces de esquizofrenia no cérebro de crianças?

Investigadores analisaram o cérebro de 88 crianças com maior risco de desenvolver esquizofrenia e verificaram que este pode apresentar diferenças estruturais subtis, incluindo alterações na substância branca, antes da manifestação clínica da condição.

Publicado a Jul 6, 2026

A esquizofrenia é uma doença complexa que, tipicamente, só se manifesta no final da adolescência ou início da idade adulta. No entanto, há muito que os cientistas suspeitam que as suas raízes começam bem mais cedo. A grande questão é: será possível detetar sinais de risco ainda na infância, antes de surgirem sintomas claros? Um novo estudo procurou responder a esta pergunta, analisando como o cérebro se desenvolve em crianças com maior probabilidade de vir a desenvolver esta condição.

O estudo, baseado no projeto longitudinal CHADS (Child Health and Development Study) e coordenado por Kristin Robin Laurens, foi conduzido por uma equipa internacional e incluiu 88 crianças com idades entre os 9 e os 12 anos no início da investigação. Estas crianças foram divididas em três grupos: um com múltiplos antecedentes do desenvolvimento associados ao risco de esquizofrenia, outro com história familiar da doença e um grupo de comparação com desenvolvimento típico. Ao longo de cerca de quatro anos, os investigadores recorreram a exames de ressonância magnética para acompanhar as alterações no volume de diferentes estruturas cerebrais.

Os resultados mostraram uma diferença consistente: as crianças com maior risco apresentavam volumes mais elevados de substância branca (o tecido que assegura a comunicação entre diferentes regiões do cérebro) em comparação com as crianças sem risco identificado. Este padrão manteve-se ao longo das várias avaliações, sugerindo que estas diferenças podem surgir muito cedo no desenvolvimento cerebral.

Por outro lado, no que diz respeito à substância cinzenta (associada ao processamento de informação), não foram observadas diferenças estáveis entre os grupos. Ainda assim, nas crianças com história familiar da doença, surgiram algumas alterações ao longo do tempo em regiões cerebrais específicas, relacionadas com memória, emoção e perceção. No entanto, estes efeitos não se mantiveram após análises estatísticas mais rigorosas, o que indica que devem ser interpretados com cautela.

Estes resultados sugerem que o cérebro de crianças em risco para esquizofrenia pode apresentar diferenças estruturais subtis antes mesmo de qualquer manifestação clínica. Embora ainda não seja possível prever quem irá desenvolver a doença, este tipo de investigação aponta para a importância da deteção precoce e do acompanhamento ao longo do desenvolvimento. A longo prazo, compreender melhor estas trajetórias poderá ajudar a identificar antecipadamente sinais de alerta e abrir caminho a estratégias de intervenção mais precoces e eficazes.

O estudo foi publicado na revista científica CNS Spectrums, no artigo “Trajectories of grey and white matter volume in children at elevated risk for schizophrenia”, no âmbito do projeto 194/12 - Characterising developmental trajectories of brain function from childhood into adolescence, apoiado pela Fundação Bial.

ABSTRACT

Objective: Longitudinal investigation of brain alterations in children putatively at-risk of developing schizophrenia may identify early markers of pathophysiology associated with vulnerability for the disorder. Methods: Children aged 9-12 years with multiple antecedents of schizophrenia (psychoticlike experiences; speech and/or motor delays; and social, emotional, and/or behavioural difficulties; ASz, n=31), with a family history of schizophrenia/schizoaffective disorder (FHx, n=21), and typically developing children (TD, n=35) were recruited through community screening using questionnaires. T1-weighted structural MRI scans were obtained at baseline, and after approximately 2- and 4-years of follow-up, and processed using the FreeSurfer longitudinal pipeline. Across these three assessment waves, total grey matter (GM) and white matter (WM) volume, and regional GM volumes in twelve regions of interest, were compared among the groups using linear mixed models. Results: Children from three groups were 11.21 (±1.61) years at baseline and the average lapse-of-time between each assessment was 1.76 (±0.36) years. The ASz group exhibited consistently higher total WM volume (b=29.45) compared to the TD group, with no statistically significant time-related volumetric WM or GM differences in any region. The FHx group also demonstrated higher total WM volume (b=36.49), and time-related total and regional GM volume changes were observed; however, these effects were attenuated after correction. Conclusion: Global and regionally-specific brain abnormalities distinguished children with different risk profiles for schizophrenia relative to their typically developing peers. Follow-up is required to determine how these changes may relate to later schizophrenia.

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