Podemos “ver” sem estar conscientes disso?
Estudo publicado na revista científica Cortex revela que a perceção consciente de rostos, mesmo quando é subtil e próxima do limiar de visibilidade, deixa marcas mensuráveis na atividade cerebral.
Publicado a Jun 1, 2026
Reconhecer um rosto parece algo imediato e automático. Mas o que acontece no cérebro quando a imagem é tão ténue que quase não nos apercebemos dela? E será que a atividade cerebral consegue distinguir um rosto que é realmente percebido de forma consciente de um estímulo visual que passa despercebido?
Para responder a estas questões, Adélaïde de Heering e colaboradores investigaram se uma técnica neurofisiológica chamada frequency‑tagging pode servir como um marcador objetivo da perceção consciente de rostos. Esta técnica baseia‑se no registo da atividade elétrica do cérebro (EEG) enquanto imagens são apresentadas rapidamente e de forma rítmica, permitindo identificar respostas cerebrais muito específicas a determinadas categorias visuais, como faces.
No estudo, os participantes observaram longas sequências de imagens apresentadas a um ritmo constante: seis imagens por segundo. De forma periódica, surgia um rosto entre essas imagens, sempre ao mesmo intervalo, o que permitia “marcar” eletricamente a resposta cerebral associada aos rostos.
Os participantes viam estas sequências com dois níveis muito baixos de contraste: 1%, em que os rostos eram praticamente invisíveis, e 1,5%, ligeiramente acima do limiar necessário para os perceber conscientemente. No final de cada sequência, tinham de indicar o género do rosto, avaliar quão visível tinha sido e indicar o grau de confiança na resposta. Ao longo da tarefa, a atenção era cuidadosamente monitorizada para garantir que eventuais diferenças nos resultados não se deviam apenas a flutuações atencionais.
Os resultados foram claros. A 1% de contraste, os participantes não conseguiam identificar o género dos rostos acima do acaso, relatavam pouca ou nenhuma visibilidade e o cérebro não mostrava uma resposta específica aos rostos. Nestas condições, não havia sinais neurais que indicassem perceção consciente. Já a 1,5% de contraste, os participantes conseguiam identificar os rostos corretamente, relatar maior visibilidade e demonstrar confiança nas suas decisões. Nessas sequências, surgia também um sinal cerebral robusto e seletivo associado aos rostos, registado em regiões do cérebro conhecidas por estarem envolvidas no processamento facial. Mais ainda: a intensidade desse sinal aumentava de forma gradual com a visibilidade subjetiva e com o grau de confiança reportado.
Este estudo mostra que, neste paradigma, a resposta cerebral associada às faces não reflete apenas a presença do estímulo, nem a atenção visual, mas acompanha de perto a experiência consciente. Assim, a investigação reforça a ideia de que a perceção consciente, mesmo quando é subtil e próxima do limiar de visibilidade, deixa marcas mensuráveis na atividade cerebral. Este estudo foi publicado na revista científica Cortex, no artigo Frequency-tagging as a measure of conscious face perception, no âmbito do projeto de investigação 50/22 - The steady-state visual evoked potential (SSVEP) tool as a marker of subjective visibility, apoiado pela Fundação Bial.
ABSTRACT
Steady-state visual evoked potentials (SSVEPs) from frequency-tagging (FT) paradigms are widely used to investigate visual processing. Yet their association to conscious perception remains unclear. To test whether SSVEP occurs during conscious perception or without consciousness, 32 participants saw sequences of different images presented at 6 Hz (6 images per second) and containing faces every fifth image (1.2 Hz). All images were presented at either 1% contrast or 1.5% contrast. After each sequence, participants had to categorise the face gender (objective perception) and rate their confidence in this categorisation and the visibility of the faces (subjective perception). During the sequence presentation, participants' attention was monitored via an orthogonal fixation-cross task. Results showed that, at 1.5% contrast, the face signal was higher during correct than during incorrect gender categorisation and increased linearly with both visibility and confidence ratings. In line with participants’ performance on the fixation-cross task, the signal collected at 6 Hz also indicated that attention related more closely to confidence than to visibility. At 1% contrast however, no face perception occurred behaviourally, which was confirmed by the absence of brain signal recorded in response to face instances. Overall these findings show that SSVEPs can track both the objective and subjective perception of faces at a conscious contrast (1.5%). These findings bring new evidence that SSVEPs can be used as a marker of conscious perception.