Notícias
Apoios

O que acontece às ligações cerebrais quando meditamos de formas diferentes

Investigação sugere que cada tipo de meditação está associado a um padrão próprio de comunicação entre diferentes regiões do cérebro, revelando assinaturas neurais específicas para diferentes tipos de meditação.

Publicado a Sep 14, 2026

Embora seja muitas vezes descrita como uma única prática, a meditação engloba abordagens mentais bastante distintas. Algumas procuram manter a atenção concentrada num único objeto, outras promovem uma observação aberta da experiência e outras ainda cultivam sentimentos de bondade e compaixão. Um novo estudo sugere que cada tipo de meditação está associado a um padrão próprio de comunicação entre diferentes regiões do cérebro, revelando assinaturas neurais específicas para diferentes tipos de meditação.

A investigação foi realizada por uma equipa internacional de cientistas que estudou 22 meditadores altamente experientes. Utilizando eletroencefalografia (EEG), os investigadores registaram a atividade cerebral durante repouso e durante três práticas meditativas: meditação de atenção focada, meditação de monitorização aberta e meditação de bondade compassiva (meditação Metta). Através de uma técnica denominada causalidade de Granger, analisaram a intensidade, a frequência e a direção dos fluxos de informação entre diferentes regiões cerebrais.

Os resultados revelaram que a meditação de atenção focada produz uma redução dos fluxos de informação das regiões posteriores para as anteriores do cérebro, particularmente nas bandas alfa e beta. Também se observou uma diminuição da comunicação entre áreas frontais dos dois hemisférios. Os investigadores sugerem que este padrão poderá estar associado a uma menor influência de sinais sensoriais e de outras fontes de distração, favorecendo a concentração sustentada num único foco, como a respiração.

Já na meditação de monitorização aberta observou-se um padrão diferente. Os investigadores verificaram um aumento da comunicação entre regiões dos dois hemisférios cerebrais, em particular para zonas do hemisfério direito associadas à perceção do que acontece dentro e fora de nós. Segundo os autores, este padrão poderá refletir mecanismos cerebrais compatíveis com um estado de consciência mais amplo e recetivo, característico desta prática, em que a pessoa observa pensamentos, emoções e sensações à medida que surgem, sem se fixar em nenhuma delas.

Na meditação de bondade compassiva, por sua vez, destacou-se um padrão mais simétrico entre os hemisférios, com comunicação bidirecional entre regiões anteriores e posteriores e um envolvimento particularmente marcado das oscilações beta. Segundo os investigadores, esta configuração poderá refletir uma maior integração entre redes cerebrais envolvidas em funções relacionadas com a regulação emocional, a tomada de perspetiva e os processos sociais. A simetria observada entre os hemisférios foi interpretada pelos autores como compatível com um equilíbrio entre diferentes sistemas envolvidos no processamento emocional, característico desta prática meditativa.

Os autores concluem que cada estilo de meditação está associado a um perfil próprio de conectividade cerebral. Enquanto a atenção focada parece favorecer a redução de influências distratoras, a monitorização aberta associa-se a uma expansão da consciência e a meditação de bondade compassiva a uma configuração compatível com equilíbrio emocional e atitudes positivas para com os outros.

Este estudo foi conduzido no âmbito do projeto 272/20 - Advancements on the aware mind-brain: New insights about the neural correlates of meditation states and trait, liderado por Antonino Raffone e apoiado pela Fundação Bial, e publicado na revista Journal of Cognitive Neuroscience no artigo Distinct Patterns of Directed Brain Connectivity in Focused Attention, Open Monitoring, and Loving Kindness Meditation: An Electroencephalographic Granger Causality Study with Long-term Meditators.

ABSTRACT

The present study applied spectral Granger causality (GC) analysis to EEG recordings obtained during focused attention meditation (FAM), open monitoring meditation (OMM), and loving kindness meditation (LKM) in highly experienced meditators. The aim of the investigation was to characterize distinct connectivity signatures associated with each meditation style by examining the strength, frequency, and direction of interregional interactions. These differences were expected to specify the neural connectivity profiles of the cognitive and affective state of each meditative practice. Multivariate GC was computed from high-resolution EEG signals recorded from long-term meditators (n = 22) in four conditions: rest, FAM, OMM, and LKM. GC was analyzed in the frequency domain for key electrode clusters (anterior and posterior) in the two hemispheres to compare frequency-specific directed connectivity between rest and each meditation type. Main results demonstrated that each meditation state produced highly specific alterations in directed influences relative to rest. In FAM, there was significant reduction in posterior-to-anterior GC in the alpha and beta bands as well as decreased multispectral interhemispheric frontal GC implying attenuated bottom–up sensory and associative inputs. In OMM, multispectral GC was significantly increased from the left hemisphere to the right posterior cluster implying expanded awareness in the right posterior regions through enhanced top–down modulation by the left hemisphere. The distinctive features of LKM profile were the interhemispheric symmetry, the posterior–anterior bidirectionality, and the specific beta-band engagement, implying a coactivation of systems that support an emotionally balanced stance, equanimity, and prosocial attitude. These novel findings demonstrate that the direction and frequency specificity of information flows provide complementary insights into neural processes underlying distinct meditative states.

Partilhe

Send through