Conseguimos perceber, em tempo real, o que se passa na mente que sonha?
Investigação revela que sonhadores lúcidos conseguem transmitir informação fiável em tempo real, diretamente do sonho. Esta descoberta abre novas possibilidades para estudar a mente durante o sono.
Publicado a Feb 16, 2026
Explorar um sonho enquanto ele se desenrola sempre pareceu impossível, mas uma equipa liderada por Karen Konkoly e Delphine Oudiette demonstrou que esse território, antes inacessível, pode tornar‑se mensurável e até comunicável. O estudo, desenvolvido com uma colaboração internacional, revela que os sonhadores lúcidos (pessoas que conseguem reconhecer que estão a sonhar enquanto o sonho ocorre) conseguem transmitir informação fiável em tempo real, diretamente do sonho. Isto abre novas possibilidades para estudar a mente durante o sono.
Até agora, a investigação em torno dos sonhos dependia quase exclusivamente do que as pessoas recordavam ao acordar, o que se traduzia em relatos fragmentados, distorcidos e sem precisão temporal. Para ultrapassar esta limitação, os investigadores trabalharam com participantes que tinham experiência em sonhos lúcidos. Antes de adormecerem, estes voluntários aprenderam um pequeno “vocabulário” de sinais que podiam executar dentro do sonho: padrões específicos de respiração pelo nariz e pequenas contrações de músculos faciais. Cada padrão correspondia a uma informação simples, como indicar se os “olhos do sonho” estavam abertos ou fechados, ou se estavam a ver imagens nesse momento.
Enquanto dormiam em sono REM, estes sinais foram registados através de sensores respiratórios, eletromiografia e eletroencefalografia (EEG). Isto permitiu relacionar, com grande precisão temporal, aquilo que o voluntário comunicava a partir do sonho com a atividade cerebral registada nesse exato momento.
Os resultados revelaram que fechar os olhos dentro de um sonho não funciona como fechar os olhos na vida real. Quando estamos acordados, fechar os olhos provoca um aumento claro da atividade alfa no EEG, um padrão bem conhecido. Mas, no sonho, isso não aconteceu de forma consistente. Além disso, o ato de “fechar os olhos” no sonho só fez desaparecer as imagens oníricas em cerca de metade das vezes; noutros casos, os participantes continuaram a ver o ambiente do sonho mesmo com os “olhos fechados”. Além disso, nos três participantes que experienciaram tanto momentos com imagem como momentos sem imagem (tudo escuro) durante o sonho, verificou‑se que episódios sem conteúdo visual estavam associados a níveis mais elevados de atividade alfa, sugerindo uma relação entre ritmo cerebral e os mecanismos que sustentam a experiência visual onírica.
Em conjunto, estes dados mostram que a perceção dentro do sonho segue regras próprias e não replica simplesmente os padrões de vigília. Demonstram, pela primeira vez, que é possível estudar os sonhos diretamente enquanto estão a acontecer, um avanço metodológico que pode transformar a ciência do sono e da consciência. Este estudo foi publicado na revista científica Journal of Cognitive Neuroscience, no artigo Using real-time reporting to investigate visual experiences in dreams, no âmbito do projeto de investigação 391/20 - Illuminating the dreamer's perceptual experiences, apoiado pela Fundação Bial.
ABSTRACT
Neuroscientific investigations of human dreaming have been hampered by reliance on dream recall after awakening. For example, a challenge of associating EEG features with post-waking dream reports is that they are subject to distortion, forgetting, and poor temporal precision. In this study, we used real-time reporting to investigate whether one of the most robust features of the waking visual system, increased alpha oscillations upon closing one's eyes, also applies when people dream of closing their eyes. We studied 13 people, four with narcolepsy and nine without, who experienced many lucid dreams-they were aware they were dreaming while remaining asleep. They reported on both their dream experiences (visual percepts present/absent) and dream-eyelid status (open/closed) using a novel communication technique; they produced distinctive sniffing patterns according to presleep instructions. We observed these signals in respiration recordings from a nasal cannula. These physiological signals enabled analyses of time-locked neural activity during REM sleep. We recorded 150 signals over 19 sessions from 11 individuals. Robust increases in alpha power were not found after signaled dream-eye closure. Remarkably, the experience of eye closure while dreaming was associated with fading visual content only about half the time. Comparing the presence versus absence of visual content was possible only in three participants, who showed increased alpha power in association with a momentary lack of visual content. Enlisting dreamers to actively control and report on ongoing dream experiences in this way thus opens new avenues for dynamic investigations of dreams-the illusory perceptions that haunt our sleep.