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Como funciona um cérebro que nunca esquece?

Estudo sugere que uma memória extraordinária não depende apenas de armazenar mais informação, mas de aceder a ela com maior eficiência e flexibilidade.

Publicado a Jun 15, 2026

Será possível recordar praticamente todos os acontecimentos da nossa vida com detalhe extraordinário e o que acontece no cérebro dessas pessoas? Um novo estudo procurou responder a estas perguntas ao investigar indivíduos com memória autobiográfica altamente superior, uma condição rara que permite recordar experiências pessoais com uma precisão e detalhes invulgares.

Para isso, os investigadores compararam três pessoas com este tipo de memória excecional com 16 participantes sem essa capacidade. Enquanto escutavam pistas como “a primeira vez que foste a um concerto” ou “a última vez que cozinhaste”, todos eram desafiados a recuperar recordações pessoais, primeiro identificando a memória e depois revivendo-a com o máximo de detalhe, enquanto a sua atividade cerebral era registada através de eletroencefalografia (EEG).

Os resultados revelaram diferenças subtis mas importantes na forma como o cérebro recupera memórias. Durante a fase inicial de acesso às recordações, as pessoas com memória superior apresentaram um aumento mais acentuado de atividade cerebral na frequência theta, (associada a processos de controlo cognitivo e recuperação de memória), sobretudo quando recordavam eventos mais antigos. Este padrão sugere que estas mentes conseguem organizar e reconstruir memórias complexas de forma mais eficiente, como se navegassem pelo passado com maior precisão.

Já na fase de reviver os detalhes dessas memórias, emergiu outro padrão curioso. Enquanto os participantes comuns apresentavam um aumento inicial de atividade alpha (frequentemente associado à supressão de estímulos irrelevantes), os indivíduos com memória superior não mostraram esse pico inicial. Isto pode indicar que conseguem aceder a imagens mentais vívidas de forma mais direta, com menor necessidade de inibir informação sensorial irrelevante, tornando o processo mais fluido, como se o passado estivesse sempre pronto a ser experienciado de novo.

No conjunto, o estudo sugere que uma memória extraordinária não depende apenas de armazenar mais informação, mas de aceder a ela com maior eficiência e flexibilidade. No entanto, o estudo baseou-se num número muito reduzido de participantes com esta capacidade rara, pelo que futuras investigações com amostras maiores serão essenciais para confirmar estes mecanismos e aprofundar a compreensão de como o cérebro humano pode atingir níveis tão elevados de memória. Para saber, mais consulte o artigo Modulation of midfrontal theta and posterior alpha during the construction and elaboration of autobiographical memories in individuals with highly superior autobiographical memory publicado na revista científica Neuropsychologia, no âmbito do projeto de investigação 75/20 – Psychophysiology of highly superior autobiographical memory: Shedding light on the mind of people who never forget, liderado por Valerio Santangelo e apoiado pela Fundação Bial.

ABSTRACT

Individuals with highly superior autobiographical memory (HSAM) represent a rare population with the exceptional ability to recall autobiographical information with remarkable precision and detail. While research has begun to explore the neural mechanisms underlying this extraordinary memory performance, the role of brain oscillations has not yet been investigated in HSAM individuals. Here, we studied three individuals with HSAM and compared their results with 16 controls. We asked all participants to retrieve newer and older autobiographical memories (AMs) while their electroencephalogram (EEG) was being recorded. Participants were asked to press a button to indicate access and construction of their AM and to continue elaborating it. We focused on midfrontal theta oscillations during the construction phase of AM retrieval and posterior alpha oscillations during the elaboration phase. Compared to the controls, the HSAM participants exhibited greater theta during the retrieval of older as compared to newer AMs, and no increase of the initial posterior alpha during the elaboration phase power. These findings may reflect more efficient neural processes in HSAM individuals. Specifically, the selective midfrontal theta enhancement during retrieval of remote memories suggests a flexible engagement of control and inhibitory mechanisms, supporting complex memory construction. The lack of initial posterior alpha increase could indicate reduced cortical suppression and, speculatively, more vivid visual imagery during elaboration. These findings shed light on the unique neural dynamics underlying HSAM individuals and offer new insights into how their autobiographical memory is supported by highly efficient neuro-cognitive processes.

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