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Que impacto têm as lesões perinatais na aprendizagem de palavras?

Trabalho analisa como o cérebro lesionado aprende e oferece pistas valiosas sobre o desenvolvimento linguístico de crianças que enfrentam desafios desde o início da vida.

Publicado a Apr 13, 2026

Aprender novas palavras é um marco essencial do desenvolvimento infantil, mas para algumas crianças esse processo pode ser particularmente desafiante. É o caso das crianças que sofreram um acidente vascular cerebral perinatal, uma lesão cerebral que ocorre antes, durante ou pouco depois do nascimento, uma condição rara, mas com impacto significativo no cérebro em desenvolvimento. Para perceber como estas lesões precoces influenciam a aquisição da linguagem, uma equipa liderada por Clément François e Antoni Rodriguez‑Fornells estudou de perto a forma como crianças de 3 anos e meio aprendem e recordam novas palavras.

Os investigadores recorreram a uma tarefa clássica de fast mapping: primeiro, as crianças tinham de associar uma palavra nova a um objeto desconhecido; depois, eram avaliadas na capacidade de recordar essa associação imediatamente e, mais tarde, após alguns minutos de intervalo. O resultado foi claro: as crianças com lesões perinatais conseguiam identificar corretamente o objeto associado a uma palavra nova, tal como os seus pares sem lesão, mas tinham muito mais dificuldade em recordá-la passado algum tempo.

Esta dissociação é importante. Mostra que o problema não está não está na aprendizagem em si, mas sim na retenção da informação ao longo do tempo. Ou seja, estas crianças conseguem aprender uma palavra nova, mas têm maior dificuldade em consolidá-la na memória - um passo essencial para que o vocabulário se expanda de forma consistente. Esta dificuldade surgiu sobretudo nas crianças com lesões no hemisfério esquerdo, precisamente onde se encontram vias cerebrais cruciais para adquirir e consolidar novas palavras, como o fascículo arqueado.

No conjunto, o estudo revela que os défices linguísticos associados ao AVC perinatal podem estar ligados a limitações nos mecanismos de memória, e não apenas às redes cerebrais tradicionalmente associadas à linguagem. Isto abre caminho para intervenções mais específicas, focadas em reforçar a capacidade de retenção e consolidação da memória verbal, com uso de estratégias de repetição reforçada, exposição multimodal e práticas que ajudem a consolidar novas aprendizagens.

Ao compreender melhor como o cérebro lesionado aprende, este trabalho oferece pistas valiosas para apoiar o desenvolvimento linguístico de crianças que enfrentam desafios desde o início da vida e lembra-nos da extraordinária plasticidade, mas também da vulnerabilidade, do cérebro em crescimento. Este estudo foi publicado na revista científica Brain and Language, no artigo Evidence for a role of memory in novel word-learning after perinatal stroke, no âmbito do projeto de investigação 244/14 - Induced brain plasticity after perinatal stroke: Structural and functional connectivity, apoiado pela Fundação Bial.

ABSTRACT

Children with left perinatal arterial ischemic stroke (PAIS) often exhibit language deficits. However, evaluations of learning abilities are scarce. We compared word-referent associative learning and recall performance using a fast-mapping paradigm in a group of 3.5-year-old children with PAIS and in age-matched controls. The task involved a referent selection phase followed by immediate and delayed recall trials of the novel word-object associations. While no between-group differences were observed in the referent selection and immediate recall, children with PAIS showed lower performance in delayed recall of the newly learned associations. These results suggest that word learning difficulties after PAIS may arise due to a memory retention failure rather than to the process of referent selection through disambiguation involved in the fast mapping task. We discuss these findings in relation to the neural bases of infant language acquisition and their implications for clinical practice, particularly in terms of improving lexical acquisition and retention in children with PAIS.


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