Todos vemos a raiva da mesma forma?
Investigação procurou perceber se as diferenças individuais na forma de gerir a raiva estão relacionadas não só com a capacidade de reconhecer emoções nos outros, mas também com a rapidez com que os sinais emocionais se tornam conscientes.
Data: Oct 8, 2026
Alegria, tristeza, nojo, surpresa, medo, desprezo e raiva. Estas são as emoções básicas tradicionalmente associadas a expressões faciais descritas como universais. Enquanto importantes sinais sociais, as expressões faciais ajudam-nos a interpretar rapidamente as emoções e intenções dos outros. Entre as emoções, a raiva ocupa um lugar relevante por frequentemente sinalizar ameaça interpessoal ou conflito.
Embora seja uma das emoções mais facilmente reconhecidas nos rostos humanos, sabe-se ainda pouco sobre como os sinais de raiva são processados em diferentes condições de perceção e como esse processamento pode variar entre indivíduos. Dada a sua relevância para a saúde mental e cardiovascular, as relações interpessoais e a adaptação ao meio social, compreender os mecanismos envolvidos na perceção e regulação da raiva continua a ser um dos grandes desafios da investigação atual.
Neste contexto, com o apoio da Fundação Bial, Liliana Capitão liderou um estudo, conduzido no Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho, que procurou perceber se as diferenças individuais na forma de gerir a raiva estão relacionadas não só com a capacidade de reconhecer emoções nos outros, mas também com a rapidez com que os sinais emocionais se tornam conscientes.
No estudo, que envolveu 60 adultos saudáveis, os participantes completaram duas tarefas de processamento emocional: uma avaliava a capacidade de reconhecer conscientemente expressões faciais e outra avaliava quanto tempo demoravam diferentes expressões faciais a tornar-se visíveis para os participantes, depois de terem sido inicialmente ocultadas por outros estímulos visuais. Foram também avaliados os diferentes estilos de expressão da raiva, incluindo a tendência para a exteriorizar ou para a suprimir.
Os resultados foram revelados no artigo “The anger you see and the anger you don’t: awareness and expression styles in facial emotion processing”, publicado na revista científica Cognition and Emotion, e mostraram um padrão distinto consoante a tarefa. Quando os participantes observavam rostos visíveis e tinham de identificar a emoção expressa, os rostos zangados eram reconhecidos com maior precisão do que os rostos de medo. Quando as expressões faciais eram inicialmente ocultadas por estímulos visuais, os rostos de medo tornavam-se visíveis mais rapidamente do que os rostos zangados.
As diferenças individuais mostraram-se igualmente relevantes. As pessoas com maior tendência para externalizar a raiva reconheceram com maior precisão expressões zangadas do que expressões de medo. Por sua vez, as que tendiam a suprimir essa emoção demoraram mais tempo a aperceber-se de rostos zangados do que de rostos de medo ou neutros quando as expressões faciais eram inicialmente ocultadas por outros estímulos visuais.
“Concluímos que os sinais de raiva não são processados de forma uniforme”, afirma Liliana Capitão, acrescentando que “a forma como cada pessoa gere a raiva está relacionada com o modo como a perceciona nos outros”. Os resultados reforçam a importância de considerar as emoções numa perspetiva multidimensional e de integrar as diferenças individuais nos modelos que procuram explicar a perceção e a regulação da raiva, uma vez que a relação entre as características emocionais individuais e o processamento cognitivo pode variar em função da emoção envolvida.
Saiba mais sobre o projeto “277/22 - Anger in the mind and body: From unconscious cognitive mechanisms to psychophysiological and neural substrates” aqui.