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A perceção de esforço conjunto aumenta a nossa vontade de persistir numa tarefa?

Estudo mostra que perceber o empenho de quem coopera connosco não torna necessariamente a tarefa mais agradável, mas reforça os recursos cognitivos que nos ajudam a manter o compromisso.

Estudo avalia se a perceção do esforço de um parceiro conduz a um maior envolvimento de mecanismos de controlo executivo para manter o foco na tarefa. Os resultados obtidos revelaram que perceber o empenho de quem coopera connosco reforça os recursos cognitivos que nos ajudam a manter o compromisso e resistir à tentação de abandonar a ação conjunta.

Na sociabilidade humana, a cooperação ocupa um lugar central. Em comparação com outras espécies, os humanos cooperam entre si de uma forma mais flexível e numa maior variedade de contextos. Essa predisposição pró‑social leva-nos a contribuir para os objetivos de outros e para objetivos partilhados, pondo muitas vezes de lado interesses imediatos para beneficiar parceiros e grupos sociais mais amplos.

Investigação recente demonstrou que a perceção do esforço de um parceiro (por exemplo, notar que o parceiro trabalhou arduamente antes de nós) pode influenciar o nosso empenho e aumentar o sentimento de compromisso em ações conjuntas, levando a um maior esforço, persistência e desempenho em tarefas aborrecidas e exigentes. No entanto, apesar de se saber que essa perceção de esforço aumenta a nossa vontade de persistir, os processos cognitivos e motivacionais subjacentes a estes efeitos permanecem pouco claros.

Para investigar este mecanismo, uma equipa liderada por John Michael, com o apoio da Fundação Bial, pediu aos participantes que realizassem uma tarefa monótona de atenção. Antes de cada bloco da tarefa, os participantes observavam o seu “parceiro” resolver um pequeno desafio visual usado normalmente para verificar que um utilizador é humano (exemplo: sequência de caracteres distorcidos). Quando esta sequência era curta e rápida de resolver, o parceiro parecia ter investido pouco esforço; quando era longa e demorada, sugeria um esforço elevado. Esta manipulação simples alterava apenas a perceção que os participantes tinham do investimento do parceiro.

No artigo “True grit? The perception of a partner's effort boosts cognitive control to sustain commitment in joint action”, publicado na revista científica New Ideas in Psychology, os autores explicam que, após manipularem a perceção do esforço do parceiro, mediram a forma como os participantes responderam à ocorrência de erros (tempo de reação pós-erro) numa tarefa go/no-go. Durante a tarefa, sempre que cometiam um erro, analisava‑se o abrandamento que tipicamente ocorre nos ensaios seguintes, um sinal de que o cérebro está a reforçar o controlo atencional para recuperar o foco.

Embora as análises principais não tenham encontrado diferenças claras entre condições, uma análise mais detalhada revelou um padrão robusto: após errar, os participantes abrandavam mais quando acreditavam que o parceiro tinha investido muito esforço. Esse abrandamento extra sugere que o cérebro reforça os mecanismos de controlo necessários para recuperar o foco e continuar a tarefa, como se mobilizasse recursos adicionais para não comprometer a ação partilhada.

“Na medida em que a desaceleração após um erro é um indicador de maior controlo atencional supervisório, os nossos resultados sugerem que a perceção do esforço do parceiro pode reforçar o controlo cognitivo para afastar a tentação de abandonar a ação conjunta”, sublinha John Michael.

No conjunto, “o estudo mostra que perceber o empenho de quem coopera connosco não torna necessariamente a tarefa mais agradável, mas reforça os recursos cognitivos que nos ajudam a manter o compromisso”, revela o investigador afiliado à Università degli Studi di Milano Statale, Itália, e à Central European University, Áustria. Esta dinâmica “pode ter implicações práticas para melhorar o trabalho em equipa, a colaboração em contextos educativos e a motivação em tarefas desafiantes do dia a dia”.

Saiba mais sobre o projeto “132/2022 – “Mapping the Psychophysiology of Commitment” aqui.

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