O que sentem os cuidadores ao testemunharem a lucidez terminal em crianças?
Estudo sobre perceções de cuidadores ao presenciarem episódios de lucidez terminal (LT) em crianças revela que LT parece ser uma experiência profundamente comovente para os doentes terminais e potencialmente transformadora para aqueles que a testemunham.
Existe registo de várias experiências incomuns relatadas por pessoas em estado terminal e que ocorrem nos últimos dias, horas ou minutos da vida. Uma dessas experiências, denominada lucidez terminal (LT), caracteriza-se por um surto inesperado de clareza mental, que pode ser acompanhado por uma breve recuperação das capacidades cognitivas. A LT pode ser considerada um enigma médico difícil de explicar, uma vez que aqueles que a experimentam registam frequentemente, embora nem sempre, declínios fisiológicos irreversíveis.
Ainda que a investigação sobre a LT tenha aumentado substancialmente na última década, a maior parte dos estudos foca-se em relatos registados em populações adultas idosas. Alguns casos de LT em crianças têm sido recentemente documentados na literatura contemporânea, porém nenhum estudo examinou o que sentem os cuidadores ao testemunharem a LT em crianças.
Percebendo essa lacuna, uma equipa internacional de investigadores, coordenada por Natasha Tassell-Matamua (Universidade de Massey, Nova Zelândia), apoiada pela Fundação Bial, investigou o impacto que testemunhar a LT em crianças pode ter nos cuidadores. O objetivo era avaliar como os cuidadores percecionavam a LT, como essa experiência pode influenciar os seus sistemas de crenças, como revelaram a outras pessoas o que testemunharam e quais foram as reações a essa revelação.
No artigo “Impacts on Caregivers of Witnessing Terminal Lucidity in Children”, publicado na revista OMEGA - Journal of Death and Dying, os autores explicam que, entre 2023 e 2025, aplicaram um inquérito online a sete cuidadores para avaliar o impacto que testemunhar a LT em 11 crianças, com idades entre os 3 e os 16 anos, teve sobre eles.
Os resultados revelaram que testemunhar a LT em crianças foi considerado uma experiência espiritual transformadora, que influenciou os sistemas de crenças dos cuidadores, tornando-os pessoas mais espirituais. Todos os cuidadores que participaram no estudo revelaram o que tinham testemunhado a outras pessoas, tendo recebido uma mistura de respostas de aceitação e ceticismo.
Os profissionais de saúde foram considerados os mais céticos em relação à LT, exceto os que trabalharam de perto com a criança e passaram a sentir uma conexão com ela. Outros colegas dos cuidadores revelaram que se sentiram confortados e inspirados ao saber da LT que o seu colega havia testemunhado. Os resultados deste estudo apontam para a necessidade de uma maior educação sobre experiências de fim de vida para profissionais de saúde, de modo a reduzir o estigma de revelar a LT aos colegas e proporcionar a paz e o conforto necessários aos cuidadores de pacientes terminais.
Podemos dizer que “a investigação sobre a LT ainda está na sua infância”, recorda Natasha Tassell-Matamua, salientando, contudo, que “a LT parece ser uma experiência profundamente comovente para os doentes terminais e uma experiência potencialmente transformadora para aqueles que a testemunham”. Em particular, os resultados deste estudo “sugerem que testemunhar a LT em crianças pode iniciar uma transformação espiritual com implicações semelhantes ao crescimento pós-traumático ou às mudanças frequentemente observadas em quem teve uma Experiência de Quase Morte (EQM) ou recebeu formação em EQM”, reflete a investigadora.
Saiba mais sobre o projeto “129/22 - Mapping the characteristics and impacts of terminal lucidity in children” aqui.