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Como os estados emocionais percebidos dos entes queridos falecidos influenciam o processo de luto?

O conhecimento sobre comunicações espontâneas após a morte tem evoluído e destaca os seus efeitos positivos no luto, mas há ainda lacunas. Equipa internacional apoiada pela Fundação Bial conduziu estudo de larga escala para aprofundar estas experiências.

Estudo internacional investiga comunicações espontâneas após a morte para compreender como os participantes percebem o estado emocional dos falecidos e de que forma essa perceção influencia o seu processo de luto. Os dados mostram que estas experiências são frequentemente descritas como transformadoras, com potencial para aliviar a sensação de perda, fortalecer a esperança e redefinir a relação da pessoa com a morte e com quem partiu.

Uma comunicação espontânea após a morte (em inglês after-death communication - ADC) ocorre quando alguém percebe inesperadamente um falecido através dos sentidos. Em muitos casos, pode não haver uma perceção sensorial completa, sendo apenas relatado o sentimento da presença da pessoa falecida. Estas experiências podem surgir em vários estados de consciência: acordado, a dormir, ao adormecer ou ao despertar.

A literatura indica que as ADCs têm um caráter universal e atravessam culturas e épocas, sugerindo tratar-se de uma capacidade humana inata. Relatos de ADCs espontâneas remontam aos mais antigos registos históricos e foram documentados em todos os continentes, estimando-se que 30 a 35% das pessoas relatam um ou mais ADCs ao longo da vida, subindo essa proporção para 70 a 80% entre os enlutados.

O conhecimento sobre ADCs avançou nos últimos anos, centrado sobretudo nos efeitos positivos que podem ter no processo de luto. Apesar disso, muitas áreas permanecem pouco exploradas. Neste contexto, uma equipa internacional de investigadores, que inclui David Lorimer, Evelyn Elsaesser e Sophie Morrison, apoiados pela Fundação Bial, desenvolveu um estudo de larga escala dedicado à investigação das ADCs.

No artigo “What the deceased communicate, what we learn about their state of mind, and how this impacts grief: mixed methods analysis of a multilingual case collection of spontaneous after-death communications (ADCs)”, publicado no Journal of Anomalistics, os autores reportam a aplicação de 1.311 questionários em seis línguas, entre 2018 e 2024, para avaliar como os participantes percecionam um ente querido falecido através de vários canais sensoriais ou da simples sensação de presença. Os inquéritos foram analisados através de uma abordagem mista, combinando estatística descritiva com análise qualitativa detalhada de relatos.

Cerca de 75% dos inquiridos afirmaram ter detetado algum estado emocional no falecido, com predomínio claro de estados emocionais positivos, incluindo calma e paz (45%), felicidade radiante (30%), intenção de confortar (45%) e compaixão (26%). Estados emocionais negativos foram mais raros: tristeza (11%), agitação (6%), medo (3%) e ameaça (2%). Alguns relatos indicam que certas figuras falecidas pareciam inicialmente desorientadas ou perturbadas, o que podia ser doloroso para quem recebia o contacto. Ainda assim, em casos com múltiplas ADCs com a mesma pessoa, observou‑se por vezes uma evolução para estados mais positivos.

De referir ainda que a convicção na autenticidade da experiência era elevada: 73% - 77% acreditaram no contacto logo após o evento, aumentando para 83% - 90% com o tempo. Esta perceção de “realidade” revelou-se crucial para a sua eficácia emocional, com muitos participantes a relatarem menor dor, diminuição do medo da morte e um sentimento renovado de ligação.

“O estado de espírito do falecido foi percebido como predominantemente positivo pelos participantes da nossa investigação, o que facilitou o seu processo de luto”, refere Evelyn Elsaesser, salientando que, independentemente da sua natureza subjetiva, “as ADCs são vividas como experiências profundamente significativas, transformadoras e com potencial para aliviar o luto, reforçar a esperança e reconfigurar a relação do indivíduo com a morte e com quem partiu”.

Saiba mais sobre o projeto “396 - Mapping the circumstances, phenomenology and impact of After-Death Communications (ADCs): Analysis of new case collections and extension to other cultures” aqui.

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