Será possível que crianças em estado crítico recuperem lucidez momentos antes da morte?
Estudo pioneiro analisa casos contemporâneos de lucidez terminal em crianças e adolescentes e revela resultados surpreendentes, constituindo-se como a primeira sistematização científica moderna de lucidez terminal em idade pediátrica.
Publicado a Mar 30, 2026
Momentos inesperados de clareza mental que surgem pouco antes da morte têm sido descritos ao longo dos séculos e em diversas culturas, mas continuam a intrigar médicos, famílias e investigadores. Conhecidos como lucidez terminal, estes episódios envolvem um súbito regresso de capacidades cognitivas relacionais ou comunicativas em pessoas que, instantes antes, podiam estar em coma, profundamente sedadas ou incapazes de comunicar. Embora já existam vários estudos focados em adultos, em particular em pessoas com demência avançada, pouco se sabia sobre como estes episódios se manifestam em crianças.
Para colmatar esta lacuna, uma equipa liderada por Natasha Tassell‑Matamua reuniu, pela primeira vez, 11 casos contemporâneos de lucidez terminal em crianças e adolescentes entre os 19 meses e os 16 anos. Os relatos, fornecidos por profissionais de saúde e familiares, descrevem situações em que crianças gravemente doentes (muitas delas em estado semicomatoso, com prognóstico reservado ou consideradas incapazes de recuperar capacidades cognitivas) entravam subitamente num estado de lucidez surpreendente, que podia durar minutos ou horas e surgia quase sempre nas últimas horas de vida.
De forma consistente entre os casos, observou‑se que crianças que tinham perdido a capacidade de interagir, incluindo ausência de resposta verbal, ausência de contacto ocular ou défices motores graves, recuperaram inesperadamente competências como a capacidade de reconhecer familiares, comunicar em frases organizadas, mover-se e expressar emoções positivas, quase sempre nas últimas horas de vida. Muitos demonstraram ainda uma serenidade surpreendente: estavam mais calmos, mais enérgicos e até sorridentes, contrastando fortemente com o estado de sofrimento, apatia ou deterioração neurológica observado nos dias ou horas anteriores.
Um padrão particularmente intrigante foi a descrição de interações com pessoas não visíveis, muitas vezes familiares falecidos, outras crianças que haviam morrido recentemente no mesmo hospital, ou figuras religiosas. Em vários casos, as crianças reconfortaram os pais, dizendo que tudo ficaria bem ou expressando aceitação da própria morte, mesmo em idades (como 3 anos ou 19 meses) em que tal compreensão não seria expectável segundo modelos tradicionais do desenvolvimento.
Estes episódios surgiram sem alterações relevantes na medicação, no tratamento ou no estado clínico imediato, desafiando explicações estritamente neurofisiológicas. Embora este estudo seja exploratório e baseado em relatos retrospetivos, constitui a primeira sistematização científica moderna de lucidez terminal em idade pediátrica e sublinha a importância de reconhecer estes momentos como potencialmente significativos e transformadores para famílias e cuidadores. Este estudo foi publicado na revista científica Psychology of Consciousness, no artigo Terminal lucidity in children: A contemporary case collection, no âmbito do projeto de investigação 129/22 - Mapping the characteristics and impacts of terminal lucidity in children, apoiado pela Fundação Bial.
ABSTRACT
The unanticipated occurrence of unusually enhanced mental clarity just before death has been reported across time and cultures and has come to be known by the term “terminal lucidity.” Cases that appear to be characteristic of terminal lucidity in children have been sporadically documented in historical and more recent literature, yet no studies have systematically examined the characteristics of terminal lucidity in children. Employing a 42-item online survey, this study collected case reports of terminal lucidity in 11 children aged 16 years and under. We recorded disease progression and treatment regime, behavioral and emotional changes prior to and during terminal lucidity, the proximity of terminal lucidity to death, and the terminal lucidity duration. Results revealed that terminal lucidity tended to occur within the final hours to minutes before death of the child and typically manifested as notable changes in mental abilities, as well as marked behavioral and emotional changes. Terminal lucidity did not seem to be precluded by any changes in medical regime and seemed to happen in spite many children being in semi- or comatose states just prior to the lucidity episode. Such results suggest a surge of mental clarity in terminally ill children does occur in spite of medical expectations that it should not, which may have implications for enhancing end-of-life care in terminally ill children, as well as for developing understandings about the nature of consciousness at the end-of-life.