Sentimos o toque onde ele acontece ou onde o cérebro acredita que o corpo está?
Estudo demonstra que a sensação de pertença corporal molda a perceção tátil, influenciando tanto o que sentimos como a forma como o cérebro processa o toque.
Publicado a Mar 16, 2026
O modo como sentimos o nosso corpo resulta de um equilíbrio delicado entre sinais sensoriais e a forma como o cérebro constrói a fronteira entre “eu” e “outro”. O toque, em particular, é um dos pilares desta identidade corporal: é através dele que distinguimos o que pertence ao nosso corpo e o que lhe é externo. Mas será que esta relação funciona apenas num sentido? Se o cérebro acredita que algo externo faz parte do corpo, pode isso alterar a forma como sentimos o toque?
Num estudo liderado por Alberto Pisoni e Carlotta Fossataro, esta questão foi explorada recorrendo à ilusão da mão de borracha, que leva uma pessoa a sentir temporariamente uma mão falsa como se fosse sua. Após cada fase ilusória, os participantes recebiam toques ou na mão falsa (que sentiam como própria) ou na mão real.
Os resultados revelaram um padrão consistente: quando viam a mão falsa a ser tocada, sentiam o toque como mais intenso, mesmo sem receberem qualquer toque real e quando o toque era realmente aplicado à mão verdadeira, sentiam-no como menos intenso. Este efeito dependia de quanto a pessoa sentia que a mão falsa era realmente parte do seu corpo. Ou seja, quanto mais a mão falsa era percebida como “minha”, mais o cérebro aumentava a sensação de toque nessa mão, e diminuía na mão verdadeira. Trata‑se de um mecanismo top‑down, em que o cérebro “decide”, de cima para baixo, onde o toque deve ser sentido com mais intensidade, ajustando a perceção como quem regula um volume.
Para compreender o mecanismo neural associado, os autores usaram TMS‑EEG focado na conectividade em banda alfa no córtex somatossensorial (S1), uma área-chave para o ato. Verificaram que esta conectividade aumentava para o toque visual na mão incorporada e diminuía para o toque real. Isto significa que o cérebro reorganiza a sua rede tátil de acordo com o que considera ser o corpo.
Assim, o presente estudo parece mostrar que não sentimos apenas porque somos tocados; sentimos porque o cérebro decide o que é “meu”. A sensação de pertença corporal molda a perceção tátil, influenciando tanto o que sentimos como a forma como o cérebro processa o toque. Este estudo foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, no artigo Body ownership gates tactile awareness by reshaping the somatosensory functional connectivity, no âmbito do projeto de investigação 311/20 - How body ownership shapes tactile awareness: Inducing phantom sensations and measuring their electrophysiological correlates in immersive virtual reality, apoiado pela Fundação Bial.
Abstract
We all likely agree that tactile experience contributes to the emergence of the feeling of ownership over one’s own body. Is the opposite true? We answered this question by testing whether and how the sense of body ownership gates our tactile experience. In two experiments, we exploited a well-known multisensory illusion (Rubber Hand Illusion) to induce participants to feel a fake hand as belonging to their body, while their own hand was left in a disembodiment state (illusory-phases). After each illusory phase, a tactile stimulus was delivered to either the fake (embodied) hand or the real (disembodied) hand (testing-phases). Experiment 1 shows that the illusory phase significantly modulates the subjective feeling of touch experienced in the testing-phase, increasing tactile sensations when participants observed the fake (embodied) hand being touched (visual-touch), and decreasing them when the real (disembodied) hand was touched (real-touch). Experiment 2 investigated, by using TMS-EEG, the neural mechanism supporting this diametrical modulation of subjective feeling of touch, focusing on alpha-band oscillatory networks as the neural correlate of somatosensory awareness. S1 alpha-band connectivity fully matches the behavioral results, significantly increasing in visual-touch and decreasing in real-touch. In both experiments, a greater embodiment experienced in the illusory-phase significantly predicted higher behavioral and neurofunctional responses to visual-touch and lower responses to real-touch in the testing-phase. Altogether, our findings demonstrate that the sense of body ownership exerts a top-down modulation on tactile awareness and may do so by increasing or decreasing the strength of the somatosensory network involved in tactile awareness.