Podemos sentir o corpo onde nos dizem que ele está?
Estudo analisa até que ponto a informação verbal pode alterar a perceção da localização do nosso corpo e conclui que perceber onde o corpo está e senti‑lo como “nosso” são processos relacionados, mas distintos.
Publicado a Apr 27, 2026
A sensação de que o nosso corpo nos pertence e a perceção de onde ele se encontra no espaço parecem evidentes e estáveis. No dia a dia, raramente questionamos estas experiências. No entanto, a investigação em neurociência tem vindo a mostrar que elas são mais flexíveis do que aparentam: resultam não só da informação que recebemos pelos sentidos, mas também das nossas expectativas e crenças.
Num estudo recente, Giorgia Tosi e colaboradores investigaram até que ponto a informação verbal pode alterar a perceção da localização do corpo e se essas alterações influenciam o sentimento de posse corporal. Para isso, recorreram a uma versão em realidade virtual da clássica ilusão da mão de borracha, um paradigma amplamente usado para estudar a consciência corporal.
No estudo, os participantes observavam um avatar sentado à sua frente através de um dispositivo de realidade virtual. A mão virtual do avatar estava ligeiramente deslocada em relação à posição real da mão do participante. Em determinado momento, recebiam uma instrução verbal: nalguns, os participantes eram informados (de forma enganadora) de que a sua mão tinha sido movida para mais perto da mão virtual; noutros, recebiam informação correta. Importa sublinhar que, em ambos os casos, a mão era sempre colocada de novo exatamente na mesma posição.
Os resultados mostraram que as palavras, por si só, foram suficientes para alterar a perceção da posição da mão. Quando acreditavam que a mão tinha sido deslocada, os participantes tendiam a localizá-la mais perto da mão virtual, apesar de ela nunca ter mudado de lugar. Estes dados mostram que as nossas crenças e expectativas podem influenciar diretamente a forma como o cérebro representa o corpo no espaço.
Curiosamente, essa alteração na perceção espacial não foi acompanhada por um aumento do sentimento de que a mão virtual era “sua”. A sensação de posse corporal só se intensificou quando os participantes receberam estimulação multissensorial sincronizada, ou seja, quando aquilo que viam coincidia no tempo e no espaço com aquilo que sentiam pelo tato.
Este estudo evidencia assim uma dissociação importante: perceber onde o corpo está e senti‑lo como “nosso” são processos relacionados, mas distintos. O cérebro não se limita a combinar informação sensorial; também é influenciado pelo que acredita. Este estudo foi publicado na revista científica Psychological Research, no artigo Trust me, you are there: The role of verbal manipulation on embodiment and body localization, no âmbito do projeto de investigação 101/22 - I am where I believe my body is, apoiado pela Fundação Bial.
ABSTRACT
Body ownership (the perception of the body as belonging to oneself) and body spatial perception arise from multisensory integration and can be altered by body illusions (e.g., Rubber Hand Illusion, RHI). In the RHI, synchronous visuo-tactile stimulation elicits ownership over a fake hand and shifts the perceived real hand position (Proprioceptive Drift). This study investigated whether altering body spatial predictions through verbal manipulation affects ownership in a virtual RHI (vRHI). In the Misleading Information Condition, participants were told their hand would be moved closer to the virtual hand. In the Correct Information Condition (Control Condition), participants were told their hand would be moved and then put back in its original position. Embodiment and perceived hand position were assessed at baseline (T0), after verbal manipulation (T1), and after vRHI induction (T2). Results showed that verbal manipulation altered spatial predictions: in the Misleading Information Condition, proprioceptive drift at T1 increased. However, after the vRHI, the drift was lower in the Misleading Information Condition than in the Control condition. Embodiment increased only after the vRHI. Thus, manipulating spatial predictions influenced hand position but not embodiment, revealing top-down modulation of body spatial perception. In contrast, multisensory illusion affected perceived position and embodiment, independently of prior verbal manipulations, suggesting a possible distinction between these processes.