Notícias
Apoios

Podem os placebos funcionar mesmo quando sabemos que são “falsos”?

Estudo revela que os placebos abertos podem aliviar sintomas mesmo quando sabemos que são “falsos”. Dados obtidos sugerem que a honestidade não anula o efeito placebo, o que pode abrir caminho para abordagens terapêuticas seguras e eticamente aceitáveis.

Publicado a Jan 2, 2026

Durante décadas, acreditava-se que os placebos só funcionavam quando administrados de forma oculta. Informar um paciente de que iria tomar um comprimido sem qualquer ingrediente ativo parecia absurdo. No entanto, estudos recentes mostram que os chamados placebos de rótulo aberto (administrados com total honestidade) podem ter efeitos reais.

Uma equipa liderada por Michael Schaefer investigou este fenómeno num ensaio controlado aleatorizado. Participantes saudáveis foram expostos a imagens emocionalmente perturbadoras e receberam um spray nasal identificado como placebo ou um spray idêntico sem essa indicação. O objetivo foi testar três possíveis mecanismos: o ritual de administração (aplicar o spray sozinho ou ser administrado pelo investigador), a expectativa positiva e a crença nos placebos.

Os resultados sugerem que os placebos de rótulo aberto reduziram o desconforto emocional em relação ao grupo de controlo. A forma de administração não fez diferença. A expectativa positiva inicial não se associou à redução real do desconforto emocional, mas esteve ligada à perceção subjetiva de que o tratamento foi eficaz. Já a crença nos placebos esteve associada a maior redução do stress emocional. Ou seja, não basta ter expectativa consciente de que vai funcionar; os dados apontam que processos inconscientes parecem desempenhar um papel central no efeito do placebo aberto. Curiosamente, pessoas que acreditam em tratamentos homeopáticos não tiveram maior benefício, embora apresentassem expectativas mais positivas.

O estudo reforça evidências anteriores de que os placebos abertos podem aliviar sintomas mesmo quando sabemos que são “falsos”. Como? Provavelmente através de mecanismos inconscientes, ligados a fatores cognitivos, sociais e fisiológicos, ainda pouco compreendidos. Os dados sugerem que a honestidade não anula o efeito placebo, o que pode abrir caminho para abordagens terapêuticas seguras e eticamente aceitáveis. Este estudo foi publicado na revista científica Scientific reports, no artigo Roles of administration route, expectation, and belief in placebos in a randomized controlled trial with open-label placebos, no âmbito do projeto de investigação 98/22 - Neural correlates of open-label placebo effects in emotional distress, apoiado pela Fundação Bial.

ABSTRACT

Recent reports challenge the view that placebos need to be given in deception. Numerous studies report remarkable effects when giving placebos honestly in an open way. However, the mechanisms of open-label placebos still remain to be cleared. For example, while expectation is often regarded as an important mechanism for concealed placebos, it is unclear whether this process may also account for open-label placebo effects. Thus, alternative theories based on, for example, the embodiment theory are also discussed. Here we examined possible mechanisms of open-label placebos including administration route (to address rituals or sensorimotor embodiment mechanisms), expectation, and belief in placebos. Healthy participants viewed emotional distressing pictures and were given an open-label placebo beforehand or were in the control group. Results replicated previous studies by showing that participants in the open-label placebo conditions felt less emotional distress. Route of administration did not affect the placebo response. Treatment expectancy did not predict the placebo effect but was linked to the strength of the placebo effect that participants self-reported (which was not related to the actual placebo effect). Belief in open-label placebos was related to the strength of the placebo effect. Interestingly, an affirmative attitude towards homeopathic treatments was linked to a positive treatment expectation, but not to the actual placebo effect. We discuss the results with respect to different theories explaining open-label placebo mechanisms and argue that open-label placebos may work predominantly in an unconscious way.


Partilhe

Send through