Notícias
Apoios

O que pesa mais na perceção do tempo: o coração ou as emoções?

Investigação envolvendo 80 adultos saudáveis conclui que o conteúdo emocional de um estímulo tem um impacto mais forte na perceção do tempo do que as flutuações momentâneas associadas ao batimento cardíaco.

Publicado a Oct 19, 2026

O tempo parece acelerar e desacelerar ao sabor das nossas emoções. Quase toda a gente já sentiu que um momento de tensão passou num instante ou, pelo contrário, pareceu prolongar-se. Mas será que essa experiência depende sobretudo daquilo que vemos e sentimos ou poderá também ser influenciada pelos sinais enviados pelo próprio corpo, como os batimentos cardíacos? Foi para responder a esta questão que uma equipa de investigadores, liderada por Manos Tsakiris, procurou compreender como a emoção e a atividade cardíaca afetam a perceção da duração dos acontecimentos.

Em duas experiências distintas, envolvendo 80 adultos saudáveis, os participantes realizaram tarefas de estimativa temporal enquanto a atividade cerebral era registada através de eletroencefalografia (EEG) e os estímulos eram apresentados em momentos específicos do ciclo cardíaco: durante a sístole, quando o coração se contrai e envia sangue para o corpo, ou durante a diástole, quando relaxa entre batimentos. Numa primeira experiência, os participantes tinham de estimar a duração de padrões visuais simples. Numa segunda experiência, realizaram a mesma tarefa com rostos que exibiam expressões neutras ou de medo, permitindo aos investigadores comparar a influência dos sinais cardíacos e das emoções na perceção do tempo.

Os resultados mostraram que os batimentos cardíacos, por si só, tiveram pouco impacto na perceção do tempo. Ao contrário do que alguns estudos anteriores sugeriam, não foi encontrado um efeito consistente entre participantes que permitisse afirmar que os estímulos apresentados numa determinada fase do ciclo cardíaco eram sistematicamente percebidos como mais curtos ou mais longos. No entanto, os registos cerebrais revelaram um padrão interessante: quando os estímulos eram apresentados durante a sístole, os participantes tinham maior probabilidade de subestimar a sua duração quando o cérebro respondia de forma menos intensa a esses estímulos. Nestas situações, o intervalo parecia mais curto do que realmente era.

A influência mais forte veio, porém, das emoções. Os participantes consideraram que os rostos assustados permaneciam visíveis durante menos tempo do que os rostos neutros, apesar de terem sido apresentados exatamente durante o mesmo intervalo. Simultaneamente, esses rostos desencadearam respostas cerebrais mais intensas nas regiões envolvidas no processamento facial. Quanto mais estimulante ou emocionalmente intensa era considerada uma face, maior era também a tendência para subestimar a sua duração. Este efeito ocorreu independentemente da fase do ciclo cardíaco em que o rosto era apresentado.

Os autores concluem que o conteúdo emocional de um estímulo tem um impacto mais forte na perceção do tempo do que as flutuações momentâneas associadas ao batimento cardíaco. Ainda assim, os resultados sugerem que os sinais provenientes do coração podem influenciar subtilmente a forma como o cérebro processa a informação temporal em determinadas circunstâncias. Compreender estas interações entre emoção, corpo e perceção poderá contribuir para um melhor conhecimento dos mecanismos que fazem o cérebro construir a experiência subjetiva do tempo.

Este estudo integra o projeto 126/22, In Search of Experienced Time: How Does the Heart-Brain Coupling Support the Perception of Time? apoiado pela Fundação Bial, e foi publicado na revista Neuropsychologia, no artigo Dissecting Emotional and Cardiac Contributions to Duration Perception: Evidence from Two EEG Experiments.

ABSTRACT

Time perception is inherently malleable, influenced by both emotional and bodily states. Past research suggests that transient heartbeat-linked interoceptive signals can modulate time perception, with some studies reporting that brief stimuli presented during cardiac systole are perceived as shorter than those during diastole. Here, we used electroencephalography (EEG) across two experiments to examine how such cardiac-phase effects are neurally instantiated, and how they interact with emotional content of the stimuli. In Experiment 1, participants judged the duration of brief neutral visual stimuli (Gabor patches) presented during systole or diastole. We did not observe a reliable group-level behavioural cardiac-phase effect. Despite that, EEG revealed systolic modulation of late visual activity. Crucially, exploratory analyses showed that more negative late cortical activity predicted temporal underestimation only during systole, not diastole. In Experiment 2, we extended this design to emotionally salient stimuli (neutral vs fearful faces). Fearful faces were perceived as shorter in duration and accompanied by enhanced N170-like negativity compared to neutral faces. But this effect was not modulated by cardiac phase, suggesting that emotional salience is a much more powerful driver of duration perception than subtle cardiac fluctuations. Yet, even for faces, enhanced EEG negativity predicted temporal contraction only during systole. Together, these findings reveal that while group-level behavioural cardiac-phase effects are variable, the systole-specific neural mechanism, whereby reduced cortical activity predicts temporal contraction, replicated across both experiments. This suggests that cardiac signals can shape duration perception through transient modulation of cortical processing.

Partilhe

Send through