O que acontece no cérebro quando contemplamos algo verdadeiramente extraordinário?
Investigação revela que as experiências de deslumbramento parecem deixar assinaturas distintas na atividade cerebral, e essas assinaturas podem ser menos diferenciadas em pessoas com perturbações afetivas.
Publicado a Jul 20, 2026
Quem nunca sentiu um arrepio ao contemplar uma paisagem grandiosa ou ao olhar para imagens da Terra vista do espaço? Nestes momentos, muitas pessoas experimentam uma mistura de admiração, fascínio e encantamento que os cientistas designam por awe, uma emoção frequentemente traduzida como deslumbramento ou admiração profunda. Nos últimos anos, esta experiência tem despertado um interesse crescente na investigação científica devido à sua possível influência na forma como percebemos o mundo, regulamos as emoções e nos relacionamos com os outros. Mas será que o cérebro responde da mesma forma a estas experiências em todas as pessoas? Um estudo exploratório procurou responder a esta questão em indivíduos com depressão major e perturbação bipolar.
Os investigadores compararam 3 pessoas com perturbações afetivas e 12 participantes saudáveis. Utilizando cenários de realidade virtual imersiva, os participantes foram expostos a experiências concebidas para induzir sentimentos de deslumbramento, incluindo uma cascata rodeada por árvores gigantes, montanhas imponentes e a visão da Terra a partir do espaço. Durante a experiência, a atividade cerebral foi registada através de eletroencefalografia (EEG), e foram recolhidas ainda informações sobre o estado emocional dos participantes.
Os resultados mostraram que os participantes saudáveis reagiram de forma diferente aos vários cenários. As experiências concebidas para induzir deslumbramento provocaram respostas emocionais mais intensas do que o cenário neutro utilizado como comparação, e cada ambiente produziu padrões específicos de atividade cerebral. Entre todos os cenários, a visão da Terra a partir do espaço destacou-se por evocar alguns dos níveis mais elevados de admiração relatados pelos participantes. Para os investigadores, estes resultados sugerem que a atividade cerebral dos participantes saudáveis variou de forma sistemática em função da natureza e da intensidade emocional das experiências vividas.
Nas pessoas com perturbações afetivas, o padrão foi diferente. Embora também tenham relatado sentimentos de deslumbramento durante as experiências virtuais, as suas respostas emocionais e cerebrais variaram menos entre os diferentes cenários. Segundo os autores, este padrão poderá estar associado a diferenças no processamento emocional dos estímulos e a uma menor capacidade para adaptar a resposta emocional a contextos diferentes, características frequentemente associadas à depressão e à perturbação bipolar.
Embora preliminar e baseada numa amostra muito reduzida, os dados indicam que as experiências de deslumbramento parecem deixar assinaturas distintas na atividade cerebral, e essas assinaturas podem ser menos diferenciadas em pessoas com perturbações afetivas. O estudo sugere ainda que emoções autotranscendentes, como o deslumbramento, podem constituir uma via promissora para investigar alterações no processamento emocional associadas a estas perturbações. Estes resultados foram publicados na revista Frontiers in Systems Neuroscience, no artigo The neurobiological basis of the awe experience in affective disorders: an exploratory EEG study, no âmbito do projeto 288/20 - The origin of the sublime power in the brain: An integrated EEG-TMS study, apoiado pela Fundação Bial.
ABSTRACT
Introduction: Affective disorders (ADs) are characterized by profound emotional processing deficits involving disrupted neural network activity and connectivity, particularly within the default mode network and fronto-temporal circuits, with abnormalities in theta and alpha oscillatory patterns. While current treatments primarily target mood symptoms, emotional processing impairments often persist and predict relapses. Awe, a complex self-transcendent emotion, may counteract such deficits through its capacity to reduce rumination and enhance positive affect. However, the neural correlates of awe experiences in clinical populations remain unexplored.
Objective: For the first time, this exploratory study investigated the electroencephalographic (EEG) correlates of awe induced by validated virtual reality (VR) scenarios in individuals with ADs compared to healthy controls (HCs).
Methods: Participants were exposed to immersive VR scenarios designed to elicit different awe experiences (mountains, waterfall, Earth) and a reference (awe-neutral) scenario. EEG activity was recorded during VR exposure and at baseline, followed by emotional state questionnaires. Power spectral density and graph-theoretical connectivity indices – Nodal Positive Strength and Global Efficiency – were computed across theta, alpha, and beta bands.
Results: Healthy controls showed high awe responses in awe-inducing scenarios with selective, scenario-specific modulations in alpha and theta band activity and connectivity, reflecting preserved cognitive flexibility. Conversely, ADs reported similar awe responses across all VR scenarios with reduced environmental differentiation. With respect to HCs, ADs showed elevated theta power in bilateral frontal and temporal regions, suggesting compensatory activity related to emotional processing alterations. Both groups exhibited VR-induced reductions in alpha-band global efficiency, more pronounced in ADs, suggesting compromised neural integration during complex emotional processing.
Discussion: Taken together, the results suggest that the emotional processing deficits inherent to ADs may limit the capacity to engage differentially with emotionally complex stimuli such as awe, while nonetheless providing initial evidence that VR-based awe exposure combined with neurophysiological recording represents a valuable approach for discriminating differential cerebral emotional responses in clinical populations. This proof-of-concept work warrants further investigation in larger cohorts to evaluate the therapeutic potential of awe-based interventions for affective disorders.