O que acontece no cérebro de um bebé quando se vê ao espelho?
Estudo com 52 bebés investigou se a exposição ao próprio reflexo influencia o desenvolvimento da imitação facial, um processo associado à empatia e ao reconhecimento emocional.
Publicado a Jun 8, 2026
Como aprendemos, desde tão cedo, a imitar expressões e a reconhecer emoções? Muito antes de falarem, os bebés já estão imersos num mundo de rostos, onde cada sorriso ou franzir de sobrancelhas pode contribuir para o desenvolvimento da vida social. Um estudo recente investigou se a exposição ao próprio reflexo influencia o desenvolvimento da imitação facial − um processo associado à empatia e ao reconhecimento emocional. A investigação parte da hipótese de que as associações entre “ver” e “fazer” podem não ser inteiramente inatas, sendo também moldadas pela experiência sensoriomotora ao longo do desenvolvimento.
Para testar esta hipótese, cinquenta e dois bebés, com cerca de quatro meses, participaram num estudo liderado por Carina de Klerk, da Universidade de Essex. Durante duas semanas, um grupo teve contacto diário com um pequeno espelho incorporado num brinquedo, enquanto o outro grupo utilizou o mesmo objeto, mas sem acesso ao espelho. Antes e depois deste período, os bebés observaram vídeos de outros bebés a exibir expressões faciais, enquanto os investigadores registavam simultaneamente a atividade cerebral, através de eletroencefalografia (EEG), e a atividade muscular facial, através de eletromiografia (EMG), permitindo avaliar separadamente as respostas neurais e comportamentais.
Os resultados mostraram que a experiência com o espelho teve impacto ao nível neural. Os bebés expostos ao próprio reflexo apresentaram alterações na atividade cerebral: ao observar os rostos de outros bebés, verificou-se maior ativação em regiões sensoriomotoras, envolvidas na ligação entre a perceção e a ação. Este efeito foi particularmente evidente no hemisfério direito, numa área associada à representação do rosto, sugerindo que a experiência de observar os próprios movimentos pode reforçar circuitos neurais implicados na perceção de ações de outros.
No entanto, estas alterações não se traduziram em diferenças comportamentais. Os investigadores não encontraram evidência de um aumento da imitação facial, medida por EMG, nos bebés que tiveram contacto com o espelho. Assim, apesar de o cérebro evidenciar sinais de modulação, os bebés não passaram a reproduzir mais as expressões observadas. Este resultado sugere que as alterações neurais podem preceder manifestações comportamentais, ou que o período de exposição (duas semanas) poderá não ter sido suficiente para produzir efeitos mensuráveis ao nível do comportamento.
Em conjunto, o estudo sugere que experiências simples, como ver o próprio reflexo, podem influenciar precocemente o cérebro social. Ainda assim, permanecem questões em aberto: quanto tempo é necessário para que estas alterações se traduzam em comportamento? E qual o papel de outras interações, como a imitação pelos cuidadores? Estes resultados reforçam a ideia de que o cérebro dos bebés é altamente sensível à experiência desde muito cedo, contribuindo para esclarecer como emergem as bases da interação social. Este estudo resulta do projeto 134/20 - Copy me, copy you: Investigating the development of facial mimicry, apoiado pela Fundação Bial, e foi publicado na revista Developmental Science no artigo Two Weeks of Mirror Exposure Enhances Sensorimotor Cortex Activation but not Facial Mimicry in 4-Month-old Infants.
ABSTRACT
This study aimed to test the causal role of sensorimotor experience in the development of facial mimicry. We systematically manipulated 4-month-old infants’ experience with their own facial actions, and measured the effect on their sensorimotor cortex activation and facial mimicry when they observed others’ facial actions. Infants in the mirror condition received two weeks of daily sensorimotor experience with their own facial actions via a toy mirror, while infants in the control condition played with the same toy without the mirror for the same amount of time. Before and after this experience, we measured infants’ facial mimicry using electromyography (EMG) and their sensorimotor cortex activation using electroencephalography (EEG) while they observed videos of other infants’ facial actions. As predicted, infants in the mirror condition showed a greater increase in sensorimotor cortex activation during the observation of other infants’ facial actions than infants in the control condition. However, this greater neural activation did not translate into a greater increase in facial mimicry in the mirror group. These findings suggest that although the neural processing of others’ facial actions was enhanced as a result of the sensorimotor training, longer training periods may be necessary for this to lead to greater facial mimicry.