Notícias
Apoios

O medo nos sonhos pode influenciar a forma como reagimos às emoções durante o dia?

Estudo sugere que existe uma ligação entre o medo vivido nos sonhos e a forma como o cérebro responde a estímulos negativos quando estamos acordados.

Publicado a Sep 9, 2026

Sonhar faz parte da experiência humana, mas a sua função continua a ser um dos maiores enigmas da ciência. Ao longo das últimas décadas, vários investigadores defenderam que os sonhos podem ajudar a processar emoções e preparar-nos para lidar com desafios da vida real. Mas será que as emoções sentidas durante o sono estão realmente associadas à forma como reagimos ao mundo quando estamos acordados? Um novo estudo, conduzido por cientistas da Universidade de Turku, na Finlândia, e de outras instituições europeias e norte-americanas, procurou responder a esta questão.

O estudo envolveu 87 adultos, com idades entre os 18 e os 70 anos, que registaram diariamente os seus sonhos e avaliaram as emoções neles sentidas, bem como a qualidade do sono durante uma semana. Posteriormente, os participantes realizaram uma tarefa em laboratório, durante a qual observaram imagens neutras e negativas enquanto a atividade cerebral era monitorizada por eletroencefalografia (EEG). Além das respostas cerebrais, foram também recolhidas avaliações subjetivas da intensidade emocional provocada pelas imagens.

Os resultados mostraram que as pessoas que relataram níveis mais elevados de medo nos sonhos apresentavam uma resposta cerebral mais intensa perante imagens negativas quando estavam acordadas. No entanto, esta associação foi observada apenas nos participantes que reportaram melhor qualidade do sono durante a semana anterior. Entre os participantes com pior qualidade do sono, verificou-se o padrão oposto: níveis mais elevados de medo nos sonhos estavam associados a uma resposta cerebral menos intensa perante imagens negativas.

No entanto, essa relação não foi refletida nas avaliações subjetivas dos participantes. Embora o cérebro revelasse diferenças na forma como processava os estímulos negativos, as pessoas com mais medo nos sonhos não relataram sentir emoções mais intensas do que as restantes. Além disso, o estudo não encontrou evidências de que o medo ou outras emoções negativas nos sonhos estivessem associados a uma maior ou menor capacidade de regular emoções desagradáveis quando acordadas.

Segundo os autores, os resultados sugerem que existe uma ligação entre o medo vivido nos sonhos e a forma como o cérebro responde a estímulos negativos quando estamos acordados. Esta associação pode refletir diferenças individuais na sensibilidade a estímulos negativos e parece depender também da qualidade do sono, sublinhando a importância de estudar sonhos e sono em conjunto para compreender melhor a saúde emocional.

O estudo Fear in Dreams Predicts Stronger Affect Reactivity in Wakefulness, publicado na revista científica Sleep, foi apoiado pela Fundação Bial no âmbito do projeto 295/20 - Peace of mind and emotion regulation: Survey-based, behavioural, and neuroscientific investigations, liderado por Pilleriin Sikka.

ABSTRACT

Sleep plays an important role in affective processing and affect regulation during wakefulness. Dreaming—the subjective experiences occurring during sleep—has been suggested to reflect, or even contribute to, waking affect regulation. However, the role of dream affect in waking affect regulation has rarely been studied directly. Here, we investigated how dream affect relates to waking affect reactivity and regulation at the between-person level. Over 7 days, 87 participants (18 - 70 y, M = 27.23, SD = 11.75; 76 females) kept dream journals and rated their dream affect and sleep quality each morning upon awakening. They then completed an affect reactivity and regulation task in the laboratory while their brain activity was measured using electroencephalography. Participants were shown negative and neutral pictures and instructed to either (1) look at the pictures and experience affect elicited by the pictures or (2) downregulate their affective responses. We analyzed subjective ratings of valence and arousal as well as the late positive potential (LPP), a well-validated index of affect reactivity and regulation. Multiple linear regression analyses showed that participants with higher average levels of dream fear and good sleep quality displayed stronger affect reactivity (indexed by larger LPP amplitudes) to negative pictures. No significant relationship emerged between dream affect and subjective ratings of affect reactivity or between dream affect and waking affect regulation. These results support, at the between-person level, continuity between dream affect and objective, neurophysiological affect reactivity in wakefulness but not continuity in subjective affective

Partilhe

Send through