O estilo de comunicação do profissional de saúde faz a diferença?
Investigadores concluíram que uma comunicação empática e centrada na pessoa pode fortalecer a confiança nos profissionais de saúde, independentemente da gravidade do problema de saúde.
Publicado a Oct 26, 2026
Quando procuramos ajuda médica, pensamos normalmente no diagnóstico, nos exames ou nos medicamentos que nos são prescritos. Mas existe outro fator que também pode fazer diferença: a forma como os profissionais de saúde comunicam connosco. Um sorriso, uma atitude atenta ou algumas palavras de compreensão podem parecer pequenos gestos, mas podem influenciar a confiança que sentimos em quem nos está a tratar.
Foi precisamente esse impacto que uma equipa da Norwegian University of Science and Technology (NTNU), na Noruega, liderada por Magne Arve Flaten, decidiu investigar. Num estudo com 508 adultos, os participantes foram convidados a imaginar que tinham perdido parcial ou totalmente o olfato após uma infeção por COVID-19. Em seguida, assistiram a um vídeo em que uma profissional de saúde explicava um programa de treino olfativo para recuperar essa capacidade. O conteúdo da explicação era o mesmo para todos, mas a forma de comunicar variava: numa versão, a profissional adotava uma postura neutra e mais formal; noutra, mostrava-se mais empática, interessada e emocionalmente próxima.
Os resultados mostraram que a abordagem mais empática gerou níveis mais elevados de confiança. Os participantes que assistiram a essa versão consideraram a profissional de saúde mais digna de confiança e avaliaram o tratamento como potencialmente mais eficaz. Embora as diferenças observadas tenham sido modestas, foram estatisticamente significativas, indicando que a forma de comunicar pode influenciar a perceção que as pessoas têm dos cuidados de saúde.
Contudo, a comunicação mais calorosa não levou os participantes a mostrarem maior intenção de seguir o tratamento, nem alterou a forma como avaliavam os possíveis riscos ou inconvenientes do programa. Também não reduziu diretamente os níveis de ansiedade. Ainda assim, entre as pessoas expostas à comunicação empática, aquelas que confiaram mais na profissional apresentaram menores níveis de ansiedade, sugerindo que a confiança pode contribuir para que os doentes se sintam mais tranquilos e seguros.
Outro resultado interessante foi que a gravidade do problema imaginado, perda parcial ou total do olfato, praticamente não alterou os efeitos observados. Homens e mulheres também responderam de forma muito semelhante à comunicação empática.
Os investigadores concluem que uma comunicação empática e centrada na pessoa pode fortalecer a confiança nos profissionais de saúde, independentemente da gravidade do problema de saúde. Embora, por si só, não pareça aumentar a adesão ao tratamento, essa confiança acrescida pode tornar a experiência dos cuidados mais positiva e emocionalmente mais segura. Em suma, os resultados recordam-nos que a qualidade dos cuidados de saúde depende não apenas dos tratamentos disponibilizados, mas também da forma como estes são explicados e apresentados aos doentes.
Este estudo integra o projeto 36/20 - The role of non-verbal behaviour on placebo and nocebo effects. Psychophysiological experiments apoiado pela Fundação Bial, e foi publicado na revista Patient Preference and Adherence, no artigo Does Provider’s Supportive Communication Enhance Trust and Treatment Adherence Attitudes in Mild and Severe Dysfunction Scenarios? A Web-Based Experimental Study.
ABSTRACT
Purpose: The way healthcare providers communicate with patients can influence patients’ trust in providers and their attitudes toward treatment adherence. The present study investigated whether such influences of providers’ communication can be modulated by dysfunction severity and participant gender.
Participants and Methods: In an online experiment, participants (N = 508) were instructed to imagine having either mild or severe olfactory dysfunction (OD). They were then randomized to watch a video of a healthcare provider delivering an olfactory training (OT) as a treatment for OD, with either neutral or emotionally supportive communication. Participants then rated their perceived trust in the provider, attitudes toward treatment effectiveness, treatment engagement, treatment unpleasantness, and treatment risk. State anxiety was measured before and after watching the videos.
Results: Supportive communication elicited higher trust in the provider than neutral communication, with a small to medium effect size (Cohen’s d = 0.36). While supportive communication did not directly affect anxiety, exploratory analyses showed that higher levels of trust in the supportive communication group were linked to lower anxiety. Moreover, supportive communication elicited higher treatment effectiveness attitude. No other treatment adherence attitudes were affected by the communication. Dysfunction severity did not affect trust in provider and treatment adherence attitudes. Men reported lower perceived treatment unpleasantness than did women, and no other gender differences emerged.
Conclusion: Supportive communication may elicit higher trust in provider independent of dysfunction severity and gender, however, likely with a smaller effect than previously assumed, and with no influence on attitudes toward adherence to treatment. Gender differences in perceived attitudes toward treatment adherence appear to be limited.