Atribuímos aos falecidos as nossas próprias opiniões?
Estudo sugere que, quando tentam inferir o que os seus entes queridos falecidos pensariam sobre temas novos ou situações atuais, as pessoas não recorrem apenas a memórias do passado, podendo também ser influenciadas pelas suas próprias opiniões e crenças.
Publicado a Sep 28, 2026
Pensar em pessoas que já faleceram faz parte da experiência humana. Muitas vezes perguntamo-nos o que um pai, uma avó ou um amigo falecido pensaria sobre uma determinada decisão ou acontecimento. Mas até que ponto essas respostas refletem realmente a pessoa que partiu e não as nossas próprias opiniões? Esta foi a questão que motivou uma investigação sobre a forma como os vivos inferem aquilo que pessoas já falecidas poderiam pensar sobre novos temas e situações.
A equipa de André Mata, Francisco Cruz e Rosário Ferreira, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, realizou dois estudos com um total de 300 participantes portugueses. Os investigadores pediram aos participantes que recordassem uma pessoa próxima já falecida. Em seguida, apresentaram-lhes apenas argumentos favoráveis ou apenas argumentos desfavoráveis sobre um determinado tema, influenciando assim a forma como pensavam sobre essa questão. Depois de indicarem a sua própria opinião, os participantes foram convidados a indicar qual acreditavam ser a opinião da pessoa falecida sobre o mesmo assunto. Os investigadores analisaram então até que ponto as opiniões atribuídas aos falecidos estavam associadas às opiniões dos próprios participantes.
Os resultados mostraram que as opiniões dos participantes estavam relacionadas com as opiniões que atribuíam às pessoas falecidas. Quando passavam a encarar um tema de forma mais favorável ou desfavorável, tendiam também a acreditar que a pessoa falecida partilharia essa posição. Os investigadores verificaram ainda que este efeito era influenciado pela ligação afetiva ao falecido. Quanto maior era o carinho ou a importância atribuída a essa pessoa, mais forte parecia ser a tendência para lhe atribuir opiniões semelhantes às próprias. Em contrapartida, fatores como a religiosidade, a crença na vida após a morte ou o estado de humor não mostraram uma influência significativa neste processo.
Os resultados sugerem que, quando tentam inferir o que os seus entes queridos falecidos pensariam sobre temas novos ou situações atuais, as pessoas não recorrem apenas a memórias do passado, podendo também ser influenciadas pelas suas próprias opiniões e crenças. Além disso, os resultados sugerem que as representações mentais dos falecidos podem ser mais flexíveis e sensíveis ao contexto do que trabalhos anteriores faziam supor. Ainda assim, os autores alertam que o estudo não permite determinar até que ponto os participantes estavam a projetar as suas próprias opiniões ou simplesmente a recordar características reais da pessoa falecida, sendo necessária mais investigação sobre a forma como pensamos nos vivos e nos falecidos e sobre outros fatores que possam influenciar estas inferências.
Este estudo integra o projeto 316/20 - The psychology of the living and the dead: Interpersonal psychology in the afterlife, financiado pela Fundação Bial, e os seus resultados foram divulgados na revista científica European Journal of Social Psychology, no artigo What Would Grandma Think? Social Projection Onto Dead People.
ABSTRACT
This article explores how the mental states and processes of the living influence how they think of the dead. In two studies (N = 300), we manipulated participants’ attitudes towards certain topics and tested whether they projected their attitudes onto the minds of dead people they knew. Indeed, participants who were prompted to think favourably or unfavourably about a certain topic imagined that the other (dead) person would share their attitude. Implications are discussed in terms of how people use similar social cognition tools to think about the living and the dead and of how people's mental representations of the dead are malleable and sensitive to context. Finally, possibilities are laid out for further research on the social psychology of thinking about dead people..